14 de jun. de 2008

27 de junho: cem anos de Guimarães e mistério

“...às vezes quase acredito que eu mesmo, João,
sou um conto contado por mim mesmo. É tão imperativo...”
(Rosa, em entrevista a Günter Lorenz)

Aqui vai a breve súmula biobibliográfica: crônica de uma morte anunciada

Os eventos e acontecimentos aqui elencados foram colhidos sobretudo nos livros de autoria de Eduardo Coutinho, Vicente Guimarães e Vilma Guimarães Rosa, além da coletânea de documentos e depoimentos intitulada Em memória de Guimarães Rosa, publicada por José Olympio sete meses após o acontecimento que pasmou os admiradores do genial romancista.

1908: No dia 27 de junho, em Cordisburgo, pequeno vilarejo de Minas Gerais, nasce o futuro diplomata-romancista, uma pessoa marcada por forte religiosidade e misticismo.

1918: O menino prodígio, que já conhece a língua francesa e holandesa, inicia seus estudos em uma escola de Belo Horizonte, Minas Gerais. Em seus momentos de lazer, escreve inúmeras cartas em forma de logogrifos e charadas.

1925: Aos 16 anos, ingresso na Faculdade de Medicina. Durante esse período de estudos universitários, o jovem estudante conquista diversos prêmios com seus contos, entre os quais se destaca “Chronos Kai Anagke”, a misteriosa história de um enxadrista que conclui um pacto com o demônio para receber... um prêmio – o tema do pacto será retomado em Grande Sertão: Veredas, romance que, por sua vez, receberá... diversos prêmios.

1930: Conclusão do curso de Medicina. Nesse ano, Getúlio Vargas comanda a célebre Revolução que muda radicalmente o destino nacional e marca o espírito de toda uma geração de brasileiros.

1933: Ingresso, como Oficial-Médico, na Polícia Militar de Minas Gerais. Aprendizado do russo e do japonês. Em companhia de Geraldo França de Lima, Rosa sonha com as cerimônias de gala da Academia Brasileira de Letras, à época um prestigioso reduto de intelectuais.

1934: Brilhante sucesso no concorrido concurso de ingresso à carreira diplomática. O leque de conhecimentos de Rosa é vasto: do Direito à Geografia, da Filosofia à... Botânica.

1936: Participação e primeiro lugar no concurso de poesia da ABL.

1937: Com Sagarana, participação e segundo lugar em concurso literário nacional.

1938: Posto de cônsul-adjunto em Hamburgo, Alemanha. Com sua futura esposa, Aracy, Rosa ajuda a salvar dezenas de judeus do extermínio nazista.

1942: Posto de Secretário de Embaixada em Bogotá, Colômbia.

1946: Chefe de Gabinete do Ministro, no Rio de Janeiro, antiga capital federal. Publicação de Sagarana, coletânea de contos que recebe o Prêmio Felipe de Oliveira. Consagração literária. O escritor afirma ter escrito certos contos em estado de transe hipnótico, mediúnico – semeia-se o enigma.

1947: Em carta a seu tio Vicente Guimarães, Rosa anuncia o início de uma “guerra literária”.

1948: Conselheiro de Embaixada em Paris.

1951: Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura, ministro de Getúlio Vargas.

1954: Getúlio Vargas executa a corajosa decisão de escolher o momento para sua travessia final: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

1956: Publicação de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. São 1.400 páginas impecáveis publicadas em um único ano. O romancista declara que concluiu sua obra prima em três dias e duas noites, em estado de possessão, sem dormir. O romance recebe três grandes prêmios. Estranhamente, Rosa declara que essa é sua “autobiografia irracional”, enquanto Riobaldo fala de “almanaque grosso, de logogrifos e charadas” e menciona, sem razão aparente, a erva medicinal “dona joana”, que provoca infarto se consumida acima de pequena dose. O romance narra a história do pacto faustiano concluído pelo bardo Riobaldo – um pacto cujo objeto é a vitória sobre Hermógenes (epônimo de Saussure, segundo G. Genette), cujo preço é a perda de Diadorim (Deodorina, o “presente de Deus” ou a alma), cujo prêmio é Otacília (“moça da carinha redonda”, a efígie cunhada sobre a moeda). Os jagunços que combatem ao lado de Riobaldo têm por nome Drumõo (Carlos), Dos Anjos (Augusto), Selorico (Odorico) Mendes... A guerra trava-se no universo da literatura e da linguagem.

1957: Rosa candidata-se à Academia, mas é preterido na eleição.

1958: Nomeado Embaixador por seu amigo e conterrâneo Juscelino Kubitschek.

1961: Recebe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. Publicação de poemas sob os pseudônimos anagramáticos de SOARES GUIAMAR, SÁ ARAÚJO SEGRIM e MEURISS ARAGÃO. Sob forma de logogrifos, o conjunto de seus personagens traz nomes que sugerem desdobramentos ficcionais do próprio autor: Moimeichego (moi-me-ich-ego), Rosendo, Dona Rosalina, Orósio, João Porém...

1963: Rosa candidata-se novamente à Academia e visita acadêmicos, em campanha eleitoral, firmemente decidido a obter vitória. Antonio Callado pergunta-lhe a razão para tanto empenho. Resultado do esforço: Rosa é eleito à unanimidade. Misteriosamente, começa a adiar, sine die, a cerimônia de posse. Quando procura explanar suas razões, nota-se “um terror pueril em seus olhos”, segundo Augusto Meyer. O enigma se desdobra: a Otto Lara Resende, o médico e embaixador mineiro afirma que o prêmio Nobel, se lhe fosse atribuído, poderia matá-lo. As declarações, semeadas com critério e parcimônia, induzem a supor que Guimarães, tal como seu personagem Riobaldo (Rosa-io-bardo), poderia ter eventualmente concluído algum pacto faustiano – como aquele que ocorre em seu conto “Chronos Kai Anagke”, de 1929.

1964: Ainda reticente no que tange à posse na tão almejada Academia. Publicação de suas obras em diversos idiomas, e avanço da tradução do conjunto da obra para o alemão, por Curt Meyer-Clason, com quem o romancista troca intensa correspondência, pois deseja fazer dessa versão uma matriz para futuras traduções em outros idiomas.

1965: De maneira incompreensível a todos, Rosa, ainda aterrorizado pela Academia, evita a cerimônia de posse. A alguns, declara sofrer de males cardíacos; a outros, afirma estar com excesso de trabalho na divisão de fronteiras do Itamaraty (como se Rio Branco já não houvesse deixado quase tudo preparado, desde a virada do Século XIX...).

1966: Meyer-Clason anuncia o fim próximo de tradução do conjunto da obra, espaçando-se a correspondência entre ambos. O romancista fixa, por fim, a data da cerimônia de posse. Estranhamente, o dia escolhido é uma quinta-feira, 16 de novembro de 1967 – ao fim do ano seguinte. Também o dia da semana escolhido parece incongruente, sobretudo pelo número de meses que faltam para a cerimônia.

1967: Publicação de Tutaméia (“tudo meu”), uma forma de guia de leitura para o conjunto da obra, segundo Assis Brasil. Emir Monegal, em viagem com o romancista, observa que esses meses de 1967 são vividos como derradeiros, um pouco como se Rosa soubesse, de antemão, que não mais passaria pelos lugares visitados. Rosa declara, nas mais diversas ocasiões, que poderia suportar a cerimônia de posse, mas que temia a chegada do dia seguinte. À mancheia, Rosa semeia a ambigüidade e cultiva o enigma.

Terça-feira, 14 de novembro de 1967: Austera preparação e ensaio exaustivo de todas as etapas da cerimônia. Em forte estado de comoção, o romancista traz frias as suas mãos, mantém-se em silêncio e faz repetidas vezes o sinal da cruz. Ele relembra a Geraldo França de Lima os devaneios de 1933 a respeito das pompas da posse na Academia.

Quarta-feira, 15 de novembro de 1967: O romancista afirma ter medo de falhar, de chorar, de sofrer uma parada cardíaca durante a cerimônia: “A Academia é demais para mim”. A Academia é demais para um embaixador que pratica 21 idiomas, tem sua obra traduzida em dezenas de países, executou todas as etapas que planejou para sua vida?

Quinta-feira, 16 de novembro de 1967: Dia da cerimônia adiada durante quatro anos.
Pela manhã, emagrecido, em suas roupas doravante largas demais, ele diz a Afonso Arinos que “a normalidade nada mais é que animalidade”. Ao entardecer, ele se recusa a comer, receia vestir seu fardão bordado de louros, treme, chora e reza: “não chegarei ao fim deste ano”. As fotos do evento mostram que o fardão, pronto há quatro anos, está agora largo demais. Rosa solicita ao médico Geraldo França de Lima que fique o mais próximo possível, pois teme por sua vida. Em seu discurso, fala com freqüência sobre a morte, e menciona várias vezes o nome de Getúlio Vargas, autor da célebre frase “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. Rosa discursa a respeito dessa “substância amorfa e escolhedora – o tempo”: “Esta horária vida não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos”. Afonso Arinos observa que Guimarães “chora em seu foro interior”. Por fim, Rosa afirma que “as pessoas não morrem, elas ficam encantadas”. Contudo, para alívio dos presentes, falham as previsões tão alardeadas pelo romancista: nada lhe acontece para além da consagração literária oficial, para além da conquista do prêmio tão almejado.

Domingo, 19 de novembro de 1967: Terceiro dia após a cerimônia de consagração literária. Pela manhã, ao telefone, Pedro Calmon nota uma voz alterada, melancólica: Rosa parece sofrer e, “em convocação à posteridade”, convida Calmon à leitura do discurso que seria publicado somente alguns meses mais tarde. Em alemão, língua de Fausto, redige uma dedicatória em dicionário oferecido à sua esposa Aracy, e afirma que a vida é apenas passagem. Contrariamente a seus hábitos, não comparece à missa dominical, à Hora do Ângelo. Em seu escritório de trabalho, duas horas mais tarde, “com os olhos desmedidamente abertos, tentou falar, mas não podia mais fazê-lo”, segundo relata Afonso Arinos. Laudo: infarto! Infarto? Em meio a seus livros, Rosa entrega sua alma e está dora em diante “encantado” – fez-se mito, o maior dos mitos da literatura brasileira. Mas fez-se também mistério – indecifrável e imponderável mistério.

Saiba mais: http://www.anagrama.art.br/textos/livros/Grnd_srt.PDF

20 de fev. de 2008

Universo do Sertão? Antes universo das letras!

Leitores, aqui algumas correspondências entre o Sertão e a literatura:

Riobaldo, na pronúncia sertaneja, é Riobardo: Rosa, eu poeta (bardo).
Diadorim, Maria Deodorina dá Fé: Alma (deo-doron, presente de Deus, dá fé!)
Drumõo (jagunço): Carlos Drummond de Andrade
Dos Anjos (jagunço): Augusto dos Anjos
Selorico Mendes (padrinho/pai): Odorico Mendes, poeta e tradutor (Odisséia, entre outros)
José Babel Antunes: esse aí "untunes" a literatura, tira da sintonia: Joyce Babel (o James do babélico Ulisses!)
Habão, "capitão em válidos títulos": ele é o senhor das Abas (orelhas) do universo literário, comanda os títulos - é o tão odiado editor literário, patrão dos poetas.
Hermógenes: personagem do diálogo "Crátilo", de Platão.
Veja mais em anagrama.art.br, seção publicações em pdf.

12 de fev. de 2008

O enxadrista e o Onho

Já em 1929, o estudante de medicina João Guimarães Rosa escreveu o misterioso conto "Chronos Kai Anagke", em que se conta a história do pacto de um enxadrista com o Onho, o Que-Diga...
Você sabia?
(Aliás, "anhã" é o outro nome do Onho...)

Crônica de uma morte anunciada

Leitoras e leitores, fãs incondicionais de Rosa e seus enigmas (um pouco como eu mesmo?):
Alguém poderia me dizer quem foi que contactou o blogspot dizendo que estas informações são imprecisas? Está tudo devidamente registrado, em livros e cartas que consultei em quinze anos de pesquisa!

João Guimarães Rosa (depois passo tudo para o português, está bem?)

Abregé biobibliographique
(chronologie d’une mort annoncée)

1908 Le 27 juin, à Cordisburgo, un petit village rural de Minas Gerais, vient au monde le premier des six enfants de Mme Francisca et M. Florduardo Rosa, commerçant local. Le futur écrivain fera montre de beaucoup tenir à l’influence des astres et s’avouera très superstitieux, raison pour laquelle il serait intéressant de noter, en passant, son signe astrologique, le Cancer.
1918 L’enfant prodige, qui connaît déjà la langue française et les rudiments du hollandais, est transféré vers une école de Belo Horizonte, la Capitale de l’État de Minas Gerais.
1925 Entrée à la Faculté de Médecine. Pour étoffer ses moyens de survie, il écrit des contes et participe à des prix littéraires. Les contes primés sont publiés par le magazine O Cruzeiro.
1930 Conclusion du cours de Médecine. Mariage, en premières noces, avec Lygia Cabral Pena, dont sont nées Agnes et Vilma.
1933 Réussite au concours d’entrée au poste d’officier-médecin des Forces Publiques et apprentissage du russe et du japonais. A cette époque, avec son ami Geraldo França de Lima, il rêve déjà des solennités et des cérémonies de gala de l’Académie Brésilienne des Lettres (dont le prestige, à l’époque, équivalait, en France, à celui de la Légion d’Honneur, de l’Académie ou du Collège de France).
1934 Réussite brillante au très sélectif concours d’entrée en carrière diplomatique.
1936 Participation et Premier Prix de Poésie au concours de l’Académie Brésilienne des Lettres, avec le recueil Magma. Le recueil, renié, ne sera publié qu’en 1997.
1937 Avec Sagarana, participation et deuxième place au Prix Littéraire Humberto de Campos, organisé par l’éditeur José Olympio. Sagarana ne sera publié qu’une décennie plus tard.
1938 Poste de consul-adjoint à Hambourg, Allemagne.
1942 Poste de Secrétaire d’Ambassade à Bogota, Colombie.
1946 Nomination au poste de Chef de Cabinet du Ministre des Affaires Etrangères, à Rio, l’ancienne capitale du Brésil. Publication de Sagarana, recueil de contes qui reçoit le Prix Felipe d’Oliveira. Consécration littéraire. L’écrivain affirme avoir écrit certains contes en état de transe hypnotique.
1947 Dans un lettre à l’écrivain Vicente Guimarães, son oncle, Rosa annonce le début d’une “guerre littéraire”.
1948/51 Nommé Conseiller d’Ambassade à Paris, puis, encore une fois, Chef de Cabinet du Ministre.
1956 Publication de Corpo de Baile et Grande Sertão : Veredas (Diadorim). Ces volumes somment plus de 1.400 pages impeccables publiées dans une seule année. L’écrivain déclare qu’il a écrit son chef d’œuvre (Diadorim, son “autobiographie irrationnelle”) en trois jours et deux nuits, en état de possession, sans dormir. Ce roman reçoit trois grands prix littéraires.
1957 Rosa pose sa candidature à l’Académie, mais échoue au scrutin.
1958 Promotion au poste d’Ambassadeur, grâce au choix personnel de son ami Juscelino Kubistchek, Président de la République.
1961 Reçoit le Prix Machado de Assis, pour l’ensemble de son œuvre, octroyé par l’Académie. Publication de poèmes dans le journal O Globo, sous les pseudonymes anagrammatiques SOARES GUIAMAR, SÁ ARAÚJO SEGRIM et MEURISS ARAGÃO. Ces anagrammes deviennent autant de protocoles de lecture.
1962 Publication de Primeiras estórias.
1963 Rosa pose encore une fois sa candidature à l’Académie et rend visite aux académiciens, en franche campagne électorale. Elu à l’unanimité. Inexplicablement, il commence à ajourner, sine die, la cérémonie de réception à l’Académie. Lorsqu’il cherche à se justifier, il montre “une terreur enfantine dans ses yeux”, selon Augusto Meyer.
1964 Toujours réticent en ce qui concerne l’Académie si convoitée. Parution de traductions de ses œuvres dans plusieurs langues.
1965 Toujours hanté par l’Académie, d’une forme que personne ne comprend.
1966 Le romancier fixe, enfin, la date de la cérémonie à l’Académie. Le jour choisi sera le jeudi 16 novembre... 1967, à la fin de l’année suivante. Pour Emir Monegal, cette période sera vécue comme préparation au départ.
1967 Publication de Tutaméia, sorte de guide (hermétique et énigmatique) de lecture pour l’ensemble de l’œuvre, selon Assis Brasil. Peut-être une sorte de post-face définitif pour clore un cycle littéraire.
Rosa déclare à l’académicien Ivan Lins et à maintes autres reprises qu’il pourrait supporter la cérémonie de réception, mais qu’il craignait son lendemain. Il parle souvent à son médecin, Pedro Bloch, à propos de l’Académie. Il parle de son médecin à d’autres personnes, comme à Afonso Arinos. Il sème l’énigme.
Lundi, 13 novembre : Parution du livre de sa fille Vilma. Rosa n’y participe pas et en parle, très ému, à Geraldo França de Lima : “Je suis asphyxié, angoissé”.
Mardi, 14 novembre : Préparation austère pour la cérémonie, dont les étapes ont été soigneusement répétées. L’écrivain a les mains froides, il se montre en état de forte commotion, garde le silence et fait souvent le signe de la croix. Il rappelle à França de Lima les causeries rêveuses de 1933 au sujet du grand faste de l’Académie. Lima confirme, pour le grand bonheur de Rosa, la présence de l’ancien Président Juscelino Kubistchek.
Mercredi, 15 novembre : Le romancier dit avoir peur de défaillir, de pleurer, de ce que le cœur cesse de battre pendant la cérémonie : “L’Académie est trop pour moi”.
Jeudi, 16 novembre : Jour de la cérémonie. Le matin, “maigri, les vêtements trop larges”, il dit à Afonso Arinos que “la normalité est, à la fin, de l’animalité”. Le soir, il ne veut rien manger, il redoute d’enfiler le veston cérémoniel richement brodé de lauriers, il tremble, il pleure et fait des prières : “je n’arriverai pas à la fin de cette année”. Pendant son discours, d’une voix ferme, il parle fréquemment de la mort, et Arinos observe qu’il “pleure dans son for intérieur”. Rosa affirme que “les gens ne meurent pas, elles se font enchanter”.
Vendredi, 17 novembre : le matin, Rosa appelle Afonso Arinos pour remercier “exagérement tout ce que les académiciens avaient fait envers lui”.
Dimanche, 19 novembre : A dix heures du matin, Pedro Calmon observe que sa voix est alterée, mélancolique, Rosa donne l’impression d’un homme souffrant et, en “convocation à la postérité”, il invite Calmon à la lecture de son discours qui ne serait publié que beaucoup plus tard. En allemand, la langue de Faust, il fait ses adieux à la vie dans une dédicace posée sur un livre qu’il offre à sa deuxième épouse, Aracy. A huit heures du soir, selon Arinos, “les yeux démesurement ouverts, il a voulu parler, mais il ne pouvait plus le faire.” Rosa est désormais “enchanté”, il est devenu un mythe.

Sources bibliographiques :
COUTINHO, Eduardo de Faria (org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1983, 579 p.
GUIMARÃES, Vicente. Joãozito. Infância de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, José Olympio ; Brasília, INL, 1972, 175 p.
ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos : João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983, 457 p.
VV.AA. Em memória de Guimarães Rosa. Rio de janeiro, José Olympio, juin 1968, 255 p.

(La plupart des documents publiés dans ce volume ont été écrits sous le choc de la disparition innatendue, malgré les multiples avertissements au préalable du génial écrivain mineiro).